Variedades da Experiência científica

1. Natureza e deslumbramento: um reconhecimento do céu

“O verdadeiro devoto tem de superar o difícil caminho entre o precipício da ausência de Deus e o pântano da superstição.” — Plutarco

Certamente os dois extremos devem ser evitados, mas o que são eles? O que é ausência de Deus? Será que a preocupação em evitar o “precipício da ausência de Deus” não pressupõe a própria questão que estamos aqui para discutir? E o que exatamente é superstição? Não é, como já se disse, apenas a religião dos outros? Ou existe algum parâmetro pelo qual possamos detectar o que constitui superstição? Para mim, eu diria que a superstição é marcada não por sua pretensão a corpo de conhecimento, e sim por seu método de buscar a verdade. E gostaria de sugerir que a superstição é muito simples: é apenas crença sem evidência. Tentarei tratar da interessante questão sobre o que constitui evidência. E retornarei a essa questão da natureza da evidência e da necessidade do pensamento cético na pesquisa teológica.

A palavra religião vem do latim e significa “unir”, ligar coisas que foram separadas. É um conceito muito interessante. E, no sentido de buscar as inter-relações mais profundas entre coisas que, na superfície, parecem dissociadas, os objetivos da religião e os da ciência, creio, são idênticos — ou quase. Mas a questão tem a ver com a confiabilidade das verdades declaradas pelas duas áreas e os métodos de abordagem. De longe, o melhor jeito que conheço de deflagrar a sensação religiosa, o sentimento de temor, é olhar para o céu numa noite clara. Acredito que é muito difícil saber quem somos enquanto não entendemos onde e quando estamos. Acho que todo mundo, em todas as culturas, já sentiu temor e assombro ao olhar para o céu. Isso se reflete no mundo inteiro, tanto na ciência quanto na religião.

Thomas Carlyle disse que o deslumbramento é a base da adoração. E Albert Einstein disse: “Defendo que o sentimento religioso cósmico é o motivo mais forte e mais nobre para a pesquisa científica”. Se Carlyle e Einstein conseguiram concordar em alguma coisa, há uma pequena chance de ela estar certa.

Observatório sob o céu estrelado — a astronomia como ponte entre ciência e contemplação.

[…] Esta é a nebulosa do Véu. Trata-se de um remanescente de supernova, uma estrela que explodiu violentamente; e qualquer vida, em qualquer planeta que existisse em volta da estrela que explodiu, certamente teria sido destruída na explosão. Até estrelas comuns, como o Sol, passam por uma sequência de eventos no final de sua história, o que representa enormes problemas para os habitantes dos planetas que elas possam ter.

Daqui a 5, 6 ou 7 bilhões de anos, o Sol vai se transformar numa estrela vermelha gigante e vai engolir as órbitas de Mercúrio e Vênus — e provavelmente a Terra. A Terra ficará então dentro do Sol, e os problemas que enfrentamos hoje se tornarão, em comparação, bem modestos. Por outro lado, como isso ainda vai demorar 5 bilhões de anos ou mais, não é nosso problema mais urgente. Mas é algo para se ter em mente. Tem implicações teológicas.
[…]

Representação artística da nuvem de Oort inteira

Esta é a representação artística da nuvem de Oort inteira. Agora a dimensão é de 100 mil unidades astronômicas, e há um limite externo para a nuvem de Oort. Todos os planetas e os cometas que conhecemos estão perdidos na claridade da luz do Sol. E aqui, pela primeira vez, temos uma escala suficiente para ver algumas das estrelas vizinhas.

Portanto, o mundo em que vivemos é uma parte minúscula e insignificante de um vasto conjunto de mundos, muitos dos quais são bem menores, e alguns, bem maiores. O número total desses mundos é, como já disse, da ordem de 1 trilhão — isto é, 10¹², um número seguido de doze zeros —, no qual a Terra representa apenas um, todos pertencentes à família do Sol.
E nossa estrela, evidentemente, é apenas uma entre uma enorme multidão.
[…]

Essa perspectiva oferece uma calibração do lugar onde estamos. Não acho que ela precise ser desanimadora. É a realidade do universo em que vivemos.
Muitas religiões já tentaram erguer estátuas muito grandes de seus deuses, e a ideia, imagino, é nos fazer sentir pequenos. Mas, se esse é seu propósito, podem ficar com seus ícones inúteis. Só precisamos olhar para cima se quisermos nos sentir pequenos.
É depois de um exercício como esse que muita gente conclui que a sensação religiosa é inevitável. Edward Young, no século XVIII, disse: “Um astrônomo não devoto é maluco”, e imagino então que seja essencial que todos nós declaremos nossa devoção, sob o risco de sermos julgados malucos. Mas devoção a quê? Só o que vimos foi um universo vasto, intricado e admirável. Nenhuma conclusão teológica específica deriva de um exercício como o que acabamos de fazer.

E mais: quando entendemos um pouco da dinâmica astronômica, da evolução dos mundos, reconhecemos que mundos nascem e mundos morrem, têm vidas como os seres humanos; portanto, existe muito sofrimento e muita morte no cosmos, uma vez que há muita vida.
Por exemplo, falamos sobre as estrelas em seus estágios finais de evolução. Falamos sobre as explosões de supernovas. Há explosões muito maiores. Há explosões nos centros de galáxias, dos chamados quasares. Há outras explosões — talvez pequenos quasares. Na verdade, a própria galáxia da Via Láctea já teve uma série de explosões em seu centro, a cerca de 30 mil anos-luz de distância.

E se, como especularei mais tarde, a vida — e talvez a inteligência — são um lugar-comum cósmico, então obrigatoriamente existem destruições maciças, o extermínio de planetas inteiros, que ocorrem rotineiramente, com frequência, em todo o universo.
Essa é uma visão diferente da ideia tradicional do Ocidente de uma divindade que se desdobra cuidadosamente para promover o bem-estar de criaturas inteligentes. O que a astronomia moderna sugere é uma conclusão bem diferente.

Vem-me à mente um trecho de Alfred Tennyson:
“Encontrei-O no brilho das estrelas Notei-o nas flores de Seus campos”.
Até aí, tudo é bem comum. “Mas”, continua Tennyson, “no Seu manejo com os homens não O encontro. […] Por que é tudo à nossa volta como se algum deus menor tivesse feito o mundo, mas não tivesse tido força para moldá-lo como queria…?” Para mim, o primeiro verso — “Encontrei-O no brilho das estrelas” — não é totalmente óbvio. Depende de quem é “Ele”. Mas certamente há no céu a mensagem de que a finitude não só da vida, mas de mundos inteiros — na realidade, de galáxias inteiras — é uma antítese em relação às ideias teológicas convencionais do Ocidente, ainda que não do Oriente.

E isso então sugere uma conclusão mais ampla: a ideia de um Criador imortal. Por definição, como ressaltou Ann Druyan, um Criador imortal é um deus cruel, porque Ele, por jamais ter que enfrentar o medo da morte, cria inúmeras criaturas que precisam enfrentá-lo. Por que Ele faria isso? Se Ele é onisciente, poderia ser mais bondoso e criar imortais, a salvo do perigo da morte. Ele sai por aí criando um universo em que pelo menos várias partes — e talvez sua totalidade — morrem. E, em muitos mitos, a possibilidade mais temida pelos deuses é que os seres humanos descubram o segredo da imortalidade ou até, como no mito da Torre de Babel, tentem chegar ao céu.

Há um claro imperativo na religião ocidental de que os seres humanos têm que permanecer como criaturas pequenas e mortais. Por quê? É um pouco como o rico impor a miséria aos pobres e ainda pedir a eles que o amem por isso. E há outros questionamentos das religiões convencionais apenas no olhar mais casual para o tipo de cosmos que apresentei a vocês. Lerei um trecho de The Age of Reason, de Thomas Paine. Paine foi um inglês que desempenhou importante papel tanto na Revolução Americana quanto na Francesa:

“De onde, então, pôde surgir o solitário e estranho conceito de que o Todo-Poderoso, que tinha milhões de mundos igualmente dependentes de sua proteção, deveria parar de cuidar de todo o resto e vir morrer em nosso mundo porque, como dizem, um homem e uma mulher comeram uma maçã? E, por outro lado, devemos acreditar que todos os mundos na criação infinita tiveram uma Eva, uma maçã, uma serpente e um redentor?”


Paine está dizendo que temos uma teologia em que a Terra é o centro e envolve um pedacinho minúsculo do espaço e que, quando nos afastamos, quando adotamos uma perspectiva cósmica mais ampla, parte dessa teologia fica numa escala muito pequena. E, de fato, um problema generalizado de boa parte da teologia ocidental, na minha opinião, é que o Deus retratado é pequeno demais. É um deus de um mundinho, e não o deus de uma galáxia — muito menos de um universo.

Podemos dizer: “Isso só é assim porque as palavras corretas não estavam disponíveis na época em que os primeiros livros sagrados judaicos, cristãos ou islâmicos foram escritos”. Mas fica claro que esse não é o problema; é certamente possível, nas belas metáforas desses livros, descrever algo como a galáxia e o universo — mas isso não está lá.

Não estou propondo que seja uma virtude divertir-se com nossas limitações. Mas é importante entender o quanto não sabemos. Há uma enorme quantidade de coisas que ignoramos; há uma quantidade minúscula das que sabemos. Mas o que entendemos nos deixa cara a cara com um cosmos incrível, simplesmente diferente do cosmos de nossos ancestrais devotos.

Só tentar entender o universo não seria uma demonstração de falta de humildade? Concordo que a humildade é a única resposta justa no confronto com o universo, mas não uma humildade que nos impeça de querer descobrir a natureza do universo que admiramos.
Se buscarmos essa natureza, o amor poderá receber informações da verdade, em vez de se basear na ignorância ou no autoengano. Se um Deus Criador existe, Ele — ou Ela, qualquer que seja o pronome adequado — vai preferir um bronco que adore sem nada entender? Ou vai preferir que Seus devotos admirem o universo verdadeiro em toda a sua complexidade?

Sugiro que a ciência é, pelo menos em parte, adoração informada. Minha crença profunda é que, se existe um deus do tipo tradicional, nossa curiosidade e nossa inteligência nos são dadas por esse mesmo deus. Não estaríamos fazendo jus a esses dons se suprimíssemos nossa paixão por explorar o universo e nós mesmos.

Por outro lado, se um deus do tipo tradicional não existe, nossa curiosidade e nossa inteligência são os instrumentos essenciais para administrar nossa sobrevivência numa época extremamente perigosa. Em ambos os casos, a empreitada do conhecimento é certamente coerente com a ciência; deveria ser também com a religião — e é essencial para o bem da espécie humana.

Carl Sagan.

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