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  • Diferença entre Ceticismo e Negacionismo

    Diferença entre Ceticismo e Negacionismo

    O debate público sobre temas científicos, como o aquecimento global, muitas vezes se torna confuso pelo uso incorreto da palavra “cético”. Em 10 de novembro de 2014, um artigo do The New York Times descreveu incorretamente o senador James Inhofe como “um importante cético das mudanças climáticas”. Dois dias depois, Scott Horsley, da NPR, referiu-se a ele como “um dos principais negacionistas das mudanças climáticas no Congresso”. Essas duas expressões não significam a mesma coisa.

    Existe uma preocupação crescente com a confusão entre os termos “cético” e “negacionista”. O verdadeiro ceticismo incentiva a investigação científica, o exame crítico e o uso da razão na análise de afirmações controversas ou extraordinárias.

    O ceticismo é um dos fundamentos do método científico. O negacionismo, por outro lado, consiste na rejeição prévia de ideias, sem análise objetiva das evidências.
    Os defensores do ceticismo científico reconhecem há muito tempo os esforços políticos para desacreditar áreas consolidadas da ciência por parte de pessoas que rejeitam evidências, mas não participam da pesquisa científica nem consideram a possibilidade de que suas próprias convicções possam estar erradas.
    A palavra mais apropriada para descrever esse comportamento é “negacionismo”. Ainda assim, nem todos os que se autodenominam céticos das mudanças climáticas são necessariamente negacionistas.
    Céticos são aqueles que dedicam parte significativa de suas vidas ao exercício do pensamento crítico, da investigação racional e da promoção do ceticismo científico.

    Entendendo a diferença

    Embora os termos sejam frequentemente confundidos no debate público, ceticismo e negacionismo representam posturas intelectuais profundamente diferentes.

    1. O ceticismo faz perguntas; o negacionismo rejeita respostas

    O cético questiona afirmações, pede evidências, compara fontes e está disposto a mudar de opinião caso surjam provas convincentes. O negacionista, ao contrário, geralmente começa pela conclusão e rejeita qualquer evidência que a contradiga.

    Ceticismo: “Quais são as evidências?”
    Negacionismo: “Não importa a evidência, eu não acredito.”

    2. O ceticismo segue o método científico; o negacionismo seleciona informações

    O cético procura compreender o consenso científico e analisar os dados de maneira racional. O negacionista tende a selecionar apenas informações que confirmem suas crenças prévias, ignorando o restante.

    • O cético lê estudos contraditórios.
    • O negacionista busca apenas conteúdos que reforcem sua posição.

    3. O ceticismo aceita revisão; o negacionismo transforma crenças em identidade

    A ciência muda quando novas evidências aparecem, e o cético aceita essa possibilidade. O negacionista frequentemente transforma determinadas crenças em parte de sua identidade política, ideológica ou emocional, tornando qualquer discordância uma ameaça pessoal.

    4. O ceticismo contribui para o conhecimento; o negacionismo paralisa o debate

    O ceticismo saudável impulsiona descobertas científicas justamente porque questiona hipóteses e exige rigor metodológico. O negacionismo, ao contrário, enfraquece o diálogo racional ao rejeitar previamente fatos amplamente demonstrados.

    5. O verdadeiro cético aplica dúvida em todas as direções

    O verdadeiro cético aplica o mesmo padrão crítico tanto às próprias crenças quanto às crenças dos outros. O negacionista costuma aplicar uma “dúvida seletiva”, desconfiando apenas daquilo que contraria sua visão de mundo. Por exemplo:

    • Um cético pode questionar uma pesquisa científica específica, mas continua reconhecendo o método científico como uma ferramenta confiável de investigação.
    • Um negacionista tende a rejeitar toda uma área científica quando os resultados entram em conflito com suas convicções pessoais.

    6. O ceticismo é compatível com humildade intelectual

    O cético reconhece limites e incertezas: “Posso estar errado.”
    O negacionismo, por sua vez, frequentemente opera com certezas absolutas: “Todos estão mentindo, exceto eu e meu grupo.”

    Por fim, o ceticismo é uma ferramenta de investigação racional; o negacionismo é a recusa sistemática de aceitar evidências inconvenientes. O primeiro fortalece o pensamento crítico e aproxima as pessoas da realidade; o segundo substitui a análise racional por convicções impermeáveis aos fatos.

  • Perguntas e Respostas

    Quem foi Pirro de Élis?

    Figura 1 – Filósofo grego Pirro de Elis, gravura do livro Illustrium philosophorum et sapientum effigies ab eorum numistatibus extractae de Girolamo Olgiati, 1580.

    Pirro de Élis foi um filósofo grego nascido em Élis, por volta de 360 AEC., considerado o fundador do pirronismo, uma das principais correntes do ceticismo antigo. Pouco se sabe com certeza sobre sua vida, mas relatos antigos indicam que inicialmente trabalhou como pintor antes de dedicar-se à filosofia. Pirro acompanhou as campanhas de Alexandre, o Grande no Oriente, entrando em contato com sábios persas e indianos, experiências que possivelmente influenciaram seu pensamento. Sua filosofia defendia que os seres humanos não podem alcançar certeza absoluta sobre a realidade, pois os sentidos e as opiniões frequentemente são contraditórios. Diante disso, Pirro propunha a suspensão do juízo (epoché), evitando afirmar ou negar algo de maneira definitiva.

    Segundo ele, essa atitude levaria à ataraxia, isto é, a um estado de tranquilidade e imperturbabilidade da alma.

    Diferentemente de outros filósofos, Pirro não deixou obras escritas. Seus ensinamentos foram preservados principalmente por discípulos, especialmente Tímon de Flionte. Seu pensamento exerceu grande influência sobre o ceticismo posterior e voltou a ganhar importância durante o Renascimento e a filosofia moderna.

    O que é ceticismo na filosofia?

    Na filosofia ocidental, o ceticismo consiste em duvidar das afirmações de conhecimento, questionando os princípios em que se baseiam e o que de fato estabelecem. Os céticos desafiam a confiabilidade das afirmações de conhecimento e questionam se elas são necessariamente verdadeiras, duvidando da possibilidade de qualquer conhecimento além da experiência direta.

    Desde os tempos antigos, os céticos têm usado argumentos para desafiar filósofos, cientistas e teólogos dogmáticos, influenciando os problemas e as soluções da filosofia ocidental. Com o tempo, o termo “ceticismo” também passou a significar descrença, especialmente religiosa, sendo os céticos frequentemente vistos como descrentes ou ateus.

    Os críticos questionam se é possível determinar quais experiências são verídicas, dada a variedade das experiências humanas. A tentativa de justificar afirmações de conhecimento pode levar a uma regressão infinita ou a fundamentos arbitrários. O ceticismo desempenhou um papel importante ao forçar os filósofos a buscarem bases mais sólidas para seus pontos de vista e ao frear especulações precipitadas.

    O que os céticos questionam ou duvidam?

    Os céticos questionam a confiabilidade das afirmações de conhecimento em vários domínios, desafiando seus fundamentos e questionando se elas são necessariamente verdadeiras. Eles duvidam da possibilidade de conhecimento além da experiência direta.
    Os céticos questionam se é possível determinar quais experiências são verdadeiras, a validade de diferentes percepções e a capacidade de distinguir ilusões da realidade. Questionam também os critérios utilizados para justificar crenças, o que pode levar a um questionamento infinito. Buscam contraexemplos para as alegações de conhecimento, como a hipótese do “cérebro em uma cuba”, para desafiar a ideia de que possuímos conhecimento seguro sobre o mundo externo.
    A redescoberta de textos clássicos e o surgimento de novas ciências também contribuíram para o crescimento do ceticismo em relação à visão religiosa tradicional do mundo.

    Como os filósofos da Grécia Antiga utilizavam o ceticismo?

    Os filósofos da Grécia Antiga usavam o ceticismo de diversas maneiras, desde questionar afirmações de conhecimento até buscar a paz mental.

    Principais pensadores e abordagens:

    • Sócrates questionava o conhecimento dos outros, tendo afirmado, de forma memorável, que ele próprio nada sabia.
    • Sofistas como Protágoras promoveram o relativismo, sugerindo que a verdade é subjetiva (“o homem é a medida de todas as coisas”).
    • Górgias adotou uma postura niilista, afirmando que nada existe ou pode ser comunicado.
    • Pirro de Élis, considerado o pai do ceticismo, viveu de maneira cética, evitando comprometer-se com opiniões definitivas sobre o mundo e buscando a felicidade por meio da indiferença.
    • Os céticos acadêmicos, como Arcesilau e Carnéades, desafiaram o estoicismo e o epicurismo, argumentando que nada poderia ser conhecido com certeza e que apenas juízos prováveis poderiam ser estabelecidos.
    • Os pirrônicos, como Enesídemo e Sexto Empírico, buscavam a suspensão do juízo (epoché) para alcançar a ataraxia (imperturbabilidade), vivendo de acordo com as aparências, os costumes e as inclinações naturais.

    Qual a diferença entre ceticismo e acreditar sem provas?

    O ceticismo e a crença sem evidências são abordagens contrastantes em relação ao conhecimento e à verdade. O ceticismo é uma atitude de dúvida diante das afirmações de conhecimento, na qual se questiona a confiabilidade das afirmações e a base sobre a qual são feitas. Envolve examinar cuidadosamente os fundamentos das suposições aceitas e questionar alegações de certeza absoluta.

    Acreditar sem evidências, por outro lado, implica aceitar uma proposição sem o conhecimento necessário para garantir sua veracidade. Trata-se de uma atitude de aceitação baseada em fatores que não dependem necessariamente de evidências ou demonstrações. O ceticismo questiona as afirmações de conhecimento, enquanto a crença sem evidências aceita afirmações sem exame crítico.

    De que forma o ceticismo influenciou a ciência e o pensamento modernos?

    O ceticismo, ao questionar as afirmações sobre o conhecimento, moldou significativamente a ciência e o pensamento modernos. Ao desafiar pressupostos e exigir justificativas rigorosas, o ceticismo impulsionou a reavaliação contínua do conhecimento e estimulou o desenvolvimento de novas teorias.

    Especificamente, o ceticismo moderno surgiu da redescoberta de textos clássicos e contribuiu para enfraquecer a confiança na visão religiosa tradicional do mundo, influenciando pensadores a abandonar a busca por fundamentos absolutamente indubitáveis do conhecimento. Em vez disso, muitos passaram a buscar maneiras de conviver com problemas céticos não resolvidos por meio de perspectivas naturalistas, científicas ou religiosas.

  • Ceticismo Científico

    Ceticismo Científico

    “O ceticismo científico — também denominado ceticismo racional ou empírico — é uma postura epistemológica e metodológica fundada na investigação crítica, na análise racional das evidências e na disposição de revisar crenças diante de novos dados”.

    Seu princípio central pode ser enunciado de forma simples: alegações extraordinárias exigem evidências proporcionais. Isso significa que quanto mais improvável ou impactante for uma afirmação, maior deve ser o grau de evidência exigido para aceitá-la. Assim, um cético científico não rejeita automaticamente ideias novas ou incomuns; ele apenas exige boas razões para acreditá-las.

    A palavra “ceticismo” deriva do verbo grego sképtomai, que significa “examinar cuidadosamente” ou “investigar”. Na filosofia antiga, os céticos defendiam a suspensão do juízo diante daquilo que não pudesse ser demonstrado com segurança absoluta. O ceticismo científico moderno, porém, não consiste em duvidar de tudo indefinidamente. Diferente do ceticismo filosófico clássico — seja o pirronismo, o cartesiano ou outras vertentes que questionam a própria possibilidade de se alcançar o conhecimento —, o ceticismo científico não nega a realidade nem opera como dúvida radical provisória para fundamentar o conhecimento. Em vez disso, é uma prática contínua e integrada ao avanço científico: atua como ferramenta de validação pragmática, aplicando métodos rigorosos para distinguir afirmações confiáveis de crenças infundadas.

    Bases históricas e filosóficas

    Historicamente incorporado à dinâmica das comunidades acadêmicas, o conceito ganhou contornos modernos na segunda metade do século XX. O sociólogo Robert K. Merton, em sua análise do ethos da ciência, identificou o “ceticismo organizado” (organized skepticism) como uma das quatro normas institucionais fundamentais da atividade científica, ao lado do universalismo, do comunismo epistêmico (compartilhamento do conhecimento) e do desinteresse.

    Segundo Merton, essa norma exige que todas as ideias sejam submetidas a escrutínio rigoroso e impessoal pela comunidade científica, suspendendo temporariamente o juízo até que sejam validadas por critérios empíricos e lógicos. Nenhuma ideia é sagrada ou imune à crítica, o que garante a confiabilidade do conhecimento ao promover a falsificabilidade e a reprodutibilidade.

    Na filosofia da ciência, o ceticismo científico se alinha à tradição empirista e ao falsificacionismo de Karl Popper, segundo o qual uma teoria só é válida se puder ser testada e, potencialmente, refutada por dados contraditórios. Carl Sagan, um de seus principais divulgadores, popularizou a máxima de que afirmações extraordinárias demandam evidências extraordinárias. Autores como Paul Kurtz, em The New Skepticism, o descrevem como essencial à investigação racional, combinando razão, evidência e humildade epistemológica. Organizações como o Committee for Skeptical Inquiry (fundado em 1976) exemplificam essa abordagem na prática, investigando alegações por meio de pensamento crítico, estatística e replicação experimental.

    Pilares metodológicos

    Na prática acadêmica e de pesquisa, o ceticismo científico se apoia em dois pilares centrais:

    rejeita o conhecimento baseado exclusivamente na fé, na tradição, em anedotas isoladas ou na autoridade. Exige que as alegações passem por testes reprodutíveis, revisões por pares e controles de viés — como os testes duplo-cego. As perguntas orientadoras são: “Como sabemos disso?”, “Os dados são confiáveis?”, “Os resultados podem ser reproduzidos?”, “Há consenso entre especialistas?”.

    baseado na lógica popperiana, assume que hipóteses devem ser testáveis e potencialmente refutáveis por dados contraditórios. Não se trata de negar tudo a priori, mas de evitar a aceitação de alegações sustentadas apenas por fé, anedotas ou apelos à autoridade. Sem ceticismo, a ciência se tornaria vulnerável ao dogmatismo e à aceitação acrítica de afirmações. Ao longo da história, ideias aceitas durante séculos — como a crença de que doenças eram causadas por “miasmas” ou de que a Terra ocupava o centro do universo — foram revistas porque cientistas aplicaram investigação crítica às crenças estabelecidas. O progresso científico depende precisamente dessa disposição para questionar.


    Ceticismo, negacionismo e cinismo: distinções essenciais

    Um aspecto fundamental delimitado pela literatura acadêmica é a distinção clara entre ceticismo científico, negacionismo e cinismo.
    O negacionismo rejeita consensos científicos consolidados motivado por convicções ideológicas, econômicas ou psicológicas — mesmo diante de evidências esmagadoras.

    O cético científico, ao contrário, suspende o julgamento apenas na ausência de provas adequadas e altera sua perspectiva assim que novas evidências robustas são apresentadas. Pode questionar estudos específicos, métodos ou interpretações; o negacionista tende a rejeitar o consenso científico como um todo quando ele contraria suas crenças pessoais.
    O cinismo, por sua vez, implica incredulidade dogmática e desengajamento.

    O ceticismo científico é o oposto: é uma atitude de curiosidade ativa, prudência e honestidade diante das evidências. Seu objetivo não é destruir crenças indiscriminadamente, mas aproximar o pensamento humano da realidade por meio da investigação racional.
    Importante ressaltar também que o ceticismo científico é defeasible: aceita provisoriamente afirmações bem confirmadas por evidências robustas e permanece aberto a revisões. O conhecimento científico é, por definição, provisório e autocorretivo — teorias podem ser corrigidas, refinadas ou substituídas conforme novas evidências surgem. Essa abertura à revisão não é uma fraqueza da ciência, mas uma de suas maiores forças.

    Relevância contemporânea

    No mundo contemporâneo, o ceticismo científico tornou-se especialmente importante diante da rápida circulação de informações, pseudociências e teorias conspiratórias. Alegações sobre curas milagrosas, astrologia, terraplanismo, movimentos antivacina ou tratamentos sem comprovação frequentemente exploram emoções, medos e vieses cognitivos.

    O ceticismo científico busca examinar essas afirmações à luz das evidências disponíveis, atuando como salvaguarda contra a pseudociência, o erro metodológico e os vieses cognitivos inerentes à própria percepção humana.

    Críticas ao movimento apontam riscos de extremismo positivista ou de subestimar dimensões sociais e antropológicas de crenças. Ainda assim, sua contribuição central permanece insubstituível: proteger a integridade da ciência e fundamentar a tomada de decisões públicas em evidências.

    Em suma, o ceticismo científico representa o compromisso da ciência com a autocrítica sistemática — assegurando que o conhecimento avance por meio de investigação empírica rigorosa, e não por conveniência ou tradição. Essa norma sustenta tanto o progresso científico quanto a distinção entre ciência e não-ciência.

  • Variedades da Experiência científica

    Variedades da Experiência científica

    1. Natureza e deslumbramento: um reconhecimento do céu

    “O verdadeiro devoto tem de superar o difícil caminho entre o precipício da ausência de Deus e o pântano da superstição.” — Plutarco

    Certamente os dois extremos devem ser evitados, mas o que são eles? O que é ausência de Deus? Será que a preocupação em evitar o “precipício da ausência de Deus” não pressupõe a própria questão que estamos aqui para discutir? E o que exatamente é superstição? Não é, como já se disse, apenas a religião dos outros? Ou existe algum parâmetro pelo qual possamos detectar o que constitui superstição? Para mim, eu diria que a superstição é marcada não por sua pretensão a corpo de conhecimento, e sim por seu método de buscar a verdade. E gostaria de sugerir que a superstição é muito simples: é apenas crença sem evidência. Tentarei tratar da interessante questão sobre o que constitui evidência. E retornarei a essa questão da natureza da evidência e da necessidade do pensamento cético na pesquisa teológica.

    A palavra religião vem do latim e significa “unir”, ligar coisas que foram separadas. É um conceito muito interessante. E, no sentido de buscar as inter-relações mais profundas entre coisas que, na superfície, parecem dissociadas, os objetivos da religião e os da ciência, creio, são idênticos — ou quase. Mas a questão tem a ver com a confiabilidade das verdades declaradas pelas duas áreas e os métodos de abordagem. De longe, o melhor jeito que conheço de deflagrar a sensação religiosa, o sentimento de temor, é olhar para o céu numa noite clara. Acredito que é muito difícil saber quem somos enquanto não entendemos onde e quando estamos. Acho que todo mundo, em todas as culturas, já sentiu temor e assombro ao olhar para o céu. Isso se reflete no mundo inteiro, tanto na ciência quanto na religião.

    Thomas Carlyle disse que o deslumbramento é a base da adoração. E Albert Einstein disse: “Defendo que o sentimento religioso cósmico é o motivo mais forte e mais nobre para a pesquisa científica”. Se Carlyle e Einstein conseguiram concordar em alguma coisa, há uma pequena chance de ela estar certa.

    Observatório sob o céu estrelado — a astronomia como ponte entre ciência e contemplação.

    […] Esta é a nebulosa do Véu. Trata-se de um remanescente de supernova, uma estrela que explodiu violentamente; e qualquer vida, em qualquer planeta que existisse em volta da estrela que explodiu, certamente teria sido destruída na explosão. Até estrelas comuns, como o Sol, passam por uma sequência de eventos no final de sua história, o que representa enormes problemas para os habitantes dos planetas que elas possam ter.

    Daqui a 5, 6 ou 7 bilhões de anos, o Sol vai se transformar numa estrela vermelha gigante e vai engolir as órbitas de Mercúrio e Vênus — e provavelmente a Terra. A Terra ficará então dentro do Sol, e os problemas que enfrentamos hoje se tornarão, em comparação, bem modestos. Por outro lado, como isso ainda vai demorar 5 bilhões de anos ou mais, não é nosso problema mais urgente. Mas é algo para se ter em mente. Tem implicações teológicas.
    […]

    Representação artística da nuvem de Oort inteira

    Esta é a representação artística da nuvem de Oort inteira. Agora a dimensão é de 100 mil unidades astronômicas, e há um limite externo para a nuvem de Oort. Todos os planetas e os cometas que conhecemos estão perdidos na claridade da luz do Sol. E aqui, pela primeira vez, temos uma escala suficiente para ver algumas das estrelas vizinhas.

    Portanto, o mundo em que vivemos é uma parte minúscula e insignificante de um vasto conjunto de mundos, muitos dos quais são bem menores, e alguns, bem maiores. O número total desses mundos é, como já disse, da ordem de 1 trilhão — isto é, 10¹², um número seguido de doze zeros —, no qual a Terra representa apenas um, todos pertencentes à família do Sol.
    E nossa estrela, evidentemente, é apenas uma entre uma enorme multidão.
    […]

    Essa perspectiva oferece uma calibração do lugar onde estamos. Não acho que ela precise ser desanimadora. É a realidade do universo em que vivemos.
    Muitas religiões já tentaram erguer estátuas muito grandes de seus deuses, e a ideia, imagino, é nos fazer sentir pequenos. Mas, se esse é seu propósito, podem ficar com seus ícones inúteis. Só precisamos olhar para cima se quisermos nos sentir pequenos.
    É depois de um exercício como esse que muita gente conclui que a sensação religiosa é inevitável. Edward Young, no século XVIII, disse: “Um astrônomo não devoto é maluco”, e imagino então que seja essencial que todos nós declaremos nossa devoção, sob o risco de sermos julgados malucos. Mas devoção a quê? Só o que vimos foi um universo vasto, intricado e admirável. Nenhuma conclusão teológica específica deriva de um exercício como o que acabamos de fazer.

    E mais: quando entendemos um pouco da dinâmica astronômica, da evolução dos mundos, reconhecemos que mundos nascem e mundos morrem, têm vidas como os seres humanos; portanto, existe muito sofrimento e muita morte no cosmos, uma vez que há muita vida.
    Por exemplo, falamos sobre as estrelas em seus estágios finais de evolução. Falamos sobre as explosões de supernovas. Há explosões muito maiores. Há explosões nos centros de galáxias, dos chamados quasares. Há outras explosões — talvez pequenos quasares. Na verdade, a própria galáxia da Via Láctea já teve uma série de explosões em seu centro, a cerca de 30 mil anos-luz de distância.

    E se, como especularei mais tarde, a vida — e talvez a inteligência — são um lugar-comum cósmico, então obrigatoriamente existem destruições maciças, o extermínio de planetas inteiros, que ocorrem rotineiramente, com frequência, em todo o universo.
    Essa é uma visão diferente da ideia tradicional do Ocidente de uma divindade que se desdobra cuidadosamente para promover o bem-estar de criaturas inteligentes. O que a astronomia moderna sugere é uma conclusão bem diferente.

    Vem-me à mente um trecho de Alfred Tennyson:
    “Encontrei-O no brilho das estrelas Notei-o nas flores de Seus campos”.
    Até aí, tudo é bem comum. “Mas”, continua Tennyson, “no Seu manejo com os homens não O encontro. […] Por que é tudo à nossa volta como se algum deus menor tivesse feito o mundo, mas não tivesse tido força para moldá-lo como queria…?” Para mim, o primeiro verso — “Encontrei-O no brilho das estrelas” — não é totalmente óbvio. Depende de quem é “Ele”. Mas certamente há no céu a mensagem de que a finitude não só da vida, mas de mundos inteiros — na realidade, de galáxias inteiras — é uma antítese em relação às ideias teológicas convencionais do Ocidente, ainda que não do Oriente.

    E isso então sugere uma conclusão mais ampla: a ideia de um Criador imortal. Por definição, como ressaltou Ann Druyan, um Criador imortal é um deus cruel, porque Ele, por jamais ter que enfrentar o medo da morte, cria inúmeras criaturas que precisam enfrentá-lo. Por que Ele faria isso? Se Ele é onisciente, poderia ser mais bondoso e criar imortais, a salvo do perigo da morte. Ele sai por aí criando um universo em que pelo menos várias partes — e talvez sua totalidade — morrem. E, em muitos mitos, a possibilidade mais temida pelos deuses é que os seres humanos descubram o segredo da imortalidade ou até, como no mito da Torre de Babel, tentem chegar ao céu.

    Há um claro imperativo na religião ocidental de que os seres humanos têm que permanecer como criaturas pequenas e mortais. Por quê? É um pouco como o rico impor a miséria aos pobres e ainda pedir a eles que o amem por isso. E há outros questionamentos das religiões convencionais apenas no olhar mais casual para o tipo de cosmos que apresentei a vocês. Lerei um trecho de The Age of Reason, de Thomas Paine. Paine foi um inglês que desempenhou importante papel tanto na Revolução Americana quanto na Francesa:

    “De onde, então, pôde surgir o solitário e estranho conceito de que o Todo-Poderoso, que tinha milhões de mundos igualmente dependentes de sua proteção, deveria parar de cuidar de todo o resto e vir morrer em nosso mundo porque, como dizem, um homem e uma mulher comeram uma maçã? E, por outro lado, devemos acreditar que todos os mundos na criação infinita tiveram uma Eva, uma maçã, uma serpente e um redentor?”


    Paine está dizendo que temos uma teologia em que a Terra é o centro e envolve um pedacinho minúsculo do espaço e que, quando nos afastamos, quando adotamos uma perspectiva cósmica mais ampla, parte dessa teologia fica numa escala muito pequena. E, de fato, um problema generalizado de boa parte da teologia ocidental, na minha opinião, é que o Deus retratado é pequeno demais. É um deus de um mundinho, e não o deus de uma galáxia — muito menos de um universo.

    Podemos dizer: “Isso só é assim porque as palavras corretas não estavam disponíveis na época em que os primeiros livros sagrados judaicos, cristãos ou islâmicos foram escritos”. Mas fica claro que esse não é o problema; é certamente possível, nas belas metáforas desses livros, descrever algo como a galáxia e o universo — mas isso não está lá.

    Não estou propondo que seja uma virtude divertir-se com nossas limitações. Mas é importante entender o quanto não sabemos. Há uma enorme quantidade de coisas que ignoramos; há uma quantidade minúscula das que sabemos. Mas o que entendemos nos deixa cara a cara com um cosmos incrível, simplesmente diferente do cosmos de nossos ancestrais devotos.

    Só tentar entender o universo não seria uma demonstração de falta de humildade? Concordo que a humildade é a única resposta justa no confronto com o universo, mas não uma humildade que nos impeça de querer descobrir a natureza do universo que admiramos.
    Se buscarmos essa natureza, o amor poderá receber informações da verdade, em vez de se basear na ignorância ou no autoengano. Se um Deus Criador existe, Ele — ou Ela, qualquer que seja o pronome adequado — vai preferir um bronco que adore sem nada entender? Ou vai preferir que Seus devotos admirem o universo verdadeiro em toda a sua complexidade?

    Sugiro que a ciência é, pelo menos em parte, adoração informada. Minha crença profunda é que, se existe um deus do tipo tradicional, nossa curiosidade e nossa inteligência nos são dadas por esse mesmo deus. Não estaríamos fazendo jus a esses dons se suprimíssemos nossa paixão por explorar o universo e nós mesmos.

    Por outro lado, se um deus do tipo tradicional não existe, nossa curiosidade e nossa inteligência são os instrumentos essenciais para administrar nossa sobrevivência numa época extremamente perigosa. Em ambos os casos, a empreitada do conhecimento é certamente coerente com a ciência; deveria ser também com a religião — e é essencial para o bem da espécie humana.

    Carl Sagan.